Portugal, consegue mudar?
... pergunta de Porter na vinda a Portugal!

Sou uma privilegiada por ter a oportunidade de contactar, diariamente, com empresários de diferentes gerações. E há conversas que ficam!

Recentemente, tive uma conversa com um empresário na casa dos 80. A certa altura, começámos a recordar a vinda de Michael Porter a Portugal. Recordámos o impacto que teve no pensamento empresarial e falámos de uma pergunta que, em 2002 quando voltou a Portugal gerou uma certa polémica: “Portugal consegue mudar?”

Bom… Não vou responder... o que trago à reflexão é: As nossas empresas conseguem mudar?

Porque, quando converso com empresários, encontro muitas vezes um paradoxo. O empresário sabe que precisa de mudar. Sabe que precisa de vender mais, melhorar as margens, organizar a equipa, de delegar, de processos…. e sabe bem que precisa que o negócio deixe de depender tanto de si mesmo.

Mas nem sempre ocorre essa mudança... porque saber não é fazer. E estratégia sem execução continua a ser apenas uma intenção (adoro esta frase que não é minha!).

Há empresas que querem crescer, mas continuam a fazer como sempre fizeram:

  • Querem mais vendas, mas não mudam o processo comercial.
  • Querem mais produtividade, mas não criam rotinas.
  • Querem equipas autónomas, mas o empresário continua a decidir tudo.
  • Querem crescer, mas não criam sistemas que permitam crescer sem aumentar o caos.
  • Querem melhores resultados, mas continuam a gerir muito por percepção e pouco por indicadores.

E curiosamente não significa necessariamente falta de competência. Significa sim que a empresa não desenvolveu ainda a capacidade organizacional para sustentar a mudança (desejada!).

E talvez esta seja uma das grandes reflexões que retiro daquela conversa da semana passada: O que nos trouxe até aqui não é necessariamente o que nos vai levar até ao próximo nível (tal como Marshall Goldsmith escreve no seu livro What Got You Here Won’t Get You There).

E isto é particularmente importante para empresas familiares e empresas com muitos anos de história. Há práticas que funcionaram durante décadas. Há decisões que sempre foram tomadas da mesma maneira. Há pessoas que sempre fizeram determinadas funções. Há clientes que sempre foram tratados da mesma forma. Há empresários que construíram empresas extraordinárias com base na sua intuição, experiência e capacidade de trabalho…. Depois há também o mercado que não ficou parado à espera deles.

E como sabemos a experiência, por si só, não garante competitividade futura. Talvez seja por isso que continuo tão apaixonada por estratégia (paixoneta que iniciou precisamente no ano em que o M. Porter veio a Portugal e eu andava a decidir se seguia as disciplinas de opção relacionadas com estratégia ou se com qualidade/auditoria… e obvio já sabem quais escolhi!).

Hoje acredito que estratégia não é apenas decidir para onde queremos ir. É também ter a coragem de perguntar: O que temos de deixar de fazer para lá chegar? Que hábitos temos de mudar? Que processos temos de criar? Que competências temos de desenvolver? Que decisões temos de deixar de centralizar? E que comportamentos temos de começar a repetir até se tornarem a nova forma de trabalhar?

Porter fez uma pergunta sobre Portugal há mais de 30 anos. Na semana passada, um empresário fez-me voltar a pensar nela. E hoje deixo-a aos empresários com quem me cruzo: A SUA EMPRESA CONSEGUE MUDAR?MUDAR?

Não quando é obrigada. Não quando já não tem alternativa. Mas antes disso. Enquanto ainda pode escolher.

Porque talvez uma das maiores vantagens competitivas de uma empresa, hoje, seja precisamente esta: a capacidade de aprender, adaptar-se e mudar antes dos outros!

Todos, Todos, Todos
... e não Tudo, Tudo, Tudo!